domingo, 28 de setembro de 2008
Da Imparcialidade
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Niño Matheus
– Mas como vocês só me ligam só agora? Me diz agora, o que aconteceu! – gritava Mariana.
Junto de seu pedido chegava outra viatura que, ao estacionar, desmanchava o grupo de curiosos aglomerados, em plena tarde ensolarada, numa das portas do mercado público, a do Largo Glênio Peres. Com alguma dificuldade, os policiais conseguiram chegar à loja. A primeira imagem vista ao entrar, após desviar de algumas ervas que pendiam do teto do estabelecimento, é a de uma jovem senhora, com a região ao redor do canto direito da boca inchada e com um pequeno corte, sentada num dos sacos de condimento, a olhar para o nada. Mariana, em pé, olhava tristemente para a mãe, sem saber o que lhe dizer. Pessoas espremidas ao redor comentavam o acontecido; viam-se algumas se aproveitando da confusão para degustar os amendoins de um dos sacos arrebentados. Davam versões, se compadeciam das vítimas, algumas, rezavam.
– Me desculpa, filha – disse Dona Irene, após o qual se seguiu um longo suspiro.
– Tá, mãe, calma, tudo vai dar certo. Faz quanto tempo que levaram o pai?
– Faz uns cinco minutos, foi só eles saírem que tu chegou.
– Por que a senhora não foi junto?
– Eu te esperei para te contar o que... – e ela não conseguiu prosseguir, o pranto tomou o lugar das palavras.
– Tudo bem, não fala nada, eu já disse, tudo vai dar certo.
Mariana foi obrigada a engolir toda sua dor para cuidar de mãe. Ela tinha de ser cuidadosa, pois a mãe, assim como o pai, sofria do coração e qualquer emoção mais forte estava fora de questão. O pai não agüentara, teve um infarto assim que os assaltantes foram embora levando seu neto. Largo Glercado pa jue, ao estacionar, desmanchava o grupo de curiosos que se aglomerava em plena tarde ensolarada
Uma viatura levou-as até o hospital onde seu Antônio estava sendo operado. Dona Irene não conseguia proferir palavra, e, deitada no ombro de Mariana, procurava, a todo o custo, contar-lhe o acontecido. As informações passadas pela polícia não eram suficientes para Mariana, ela queria saber mais, queria poder expor toda a dor de uma mãe que se vê numa situação dessas.
– O Aldo tava junto – disse Dona Irene.
– O quê?! – Respondeu Mariana levando as mãos ao rosto. Dona Irene recomeça o pranto, momentos depois silenciado pelo seu repentino desfalecimento.
Mariana dorme no pequeno sofá destinado aos acompanhantes dos internos. Uma enfermeira entra no quarto para diminuir a dose de soro da mãe, e o pai, ainda anestesiado, está na sala de recuperação. A enfermeira sai do quarto e retorna com um cobertor. Ela não pode deixar de reparar no inchaço do rosto de Mariana. Ela cobre-a sem acordá-la e sai. Mariana passou o dia inteiro na delegacia, querendo saber sobre o assalto e passando informações sobre Aldo. Segundo os relatos, foi tudo muito rápido. Na loja estava o dono, um funcionário – um jovem rapaz, baleado na confusão – os pais de Mariana, e o filho, Matheus. Após passear pelo Gasômetro, eles foram até o Mercado Público. Seu Antônio tinha de comprar alguns de seus temperos, pois o estoque de casa estava terminando. Antônio assistia ao dono pesar os condimentos escolhidos. Matheus, no colo de Dona Irene, divertia-se dando tapas em tudo o que estava ao alcance de suas mãos. O jovem funcionário, até então à frente da loja para chamar freguesia, havia saído para ir ao banheiro. Ao retornar, viu seu patrão dando a um dos bandidos – o encapuzado – todo o dinheiro do caixa e, Seu Antônio e Dona Irene colados junto a uma das prateleiras a fim de proteger o neto que chorava no colo deles.
– Tu tá achando que eu tenho o dia inteiro?! Vamu com isso! – Disse o rapaz, não muito alto, a fim de não chamar atenção, apontando uma arma para o dono. Enquanto isso, o outro vigiava a entrada do estabelecimento, que, para a sorte deles, estava coberta pela vasta variedade de chás, impedindo que se visse o que acontecia lá dentro, talvez sendo esse o motivo para terem escolhido aquela loja, ao invés de qualquer outra. Além disso, ela ficava bem próxima a uma das saídas do Mercado.
– Vamu, vamu! Disse o rapaz armado em direção à porta no mesmo momento em que o outro que vigiava fez o caminho inverso e foi para cima do casal que protegia o neto, que estava quase por completo dentro da prateleira. Tentou afastá-los, desferiu um soco
– Vamu, meu! – Disse o armado.
– Ô meu, me ajuda aqui!
O bandido, parado à porta, ao ver que o choro do menino já chamava a atenção, atira no funcionário, nas costas, à altura do ombro. Seu Antônio solta Matheus e cai inconsciente no chão. Os dois correm no meio dos transeuntes; o primeiro, armado, afastando quem vêm à frente e, em seguida, o segundo, segurando Matheus pela cintura, que já tinha a pequena camiseta molhada, de tanto chorar. Dona Irene, caída no chão, segue com olhar o neto, que ao vê-la, acalma-se. Ao sair do Mercado Público, entram num carro que estava à espera deles e desaparecem em meio ao caos.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
A Breve Garça
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Intertextualidade I - Uma introdução
Apenas na cabeça de pessoas desprovidas de limite é que se é possível tornar comum o destino dessas duas figuras. Em busca de uma mesma redenção é que os homenageio, afinal, se cruzam perdidos pelo meu gosto musical.
Given to Fly
Pearl Jam
He could have tuned in, tuned in, but he tuned out
a bad time, nothing could save him
Alone in a corridor, waiting, locked out
he got up out of there, ran for hundreds of miles
He made it to the ocean
had a smoke in a tree
The wind rose up, set him down on his knee
Wave came crashing like a fist to the jaw,
Delivered him wings, "Hey, look at me now..."
Arms wide open with the sea as his floor
Oh, Power, oh...
He's flying! Woah!
Whole! Woah! Oh...
Floated back down 'cause he wanted to share
his key to the locks on the chains he saw everywhere
But first he was stripped, and then he was stabbed
by faceless men, well... He still stands.
And he still gives his love, he just gives it away
the love he recieves is the love that is saved
And sometimes is seen a strange spot in the sky
a human being that was given to fly
Flying! Woah...
Whole! Flying! Woah...
Flying Woah...
Oh Woah...
Sobre as Folhas (ou O Barão nas Árvores)
Cordel do Fogo Encantado
Contarei a história do barão
Que comia na mesa com seu pai
Era herdeiro primeiro dos currais
Mas gritou num jantar "Não quero nada! Nada!"
Nesse dia subiu num grande galho
Nunca mais o barão pisou na terra
Passou anos e anos na floresta
Andou léguas e léguas sobre as folhas
Construiu sua casa feito ninho
Beijou sua mulher perto das nuvens
Um concreto bordado nas alturas
Com manobras de amor no precipício
Quando amanheceu entre dois prédios
De pastilhas brancas e tandos andares
Ficaste bem mais distante
A luz, a sombra, a luz, vermelha, da roupa, da aurora...
Soube nessa madrugada do homem
Que não quis os minérios do pai
E não quis os segredos farpados da mãe
Subiu numa planta, no alto da pedra
Bem perto daqui,
E ficou por lá.

